Garantia de produção, estabilidade para o produtor
08/09/2014
 O cultivo protegido, que tem angariado cada vez mais adeptos, é alternativa para escapar das intempéries climáticas que afetam a plantação, mas exige conhecimento e treinamento
 
Tatiane Bueno para Revista Plasticultura
 
Chuva forte. Vento. Sol. Falta de chuvas. Secas. Mais sol. Geadas. Granizo. As variações climáticas são as principais inimigas da produção agrícola. Diferente da matemática em que dois mais dois sempre é igual a quatro a agricultura não é exatidão. E o verão 2013/2014 é prova disso. A falta de chuvas e as altas temperaturas afetaram gravemente o setor de horti-fruti-flor e o mercado só não foi totalmente comprometido devido à oferta de produtos cultivados em estufas ou pelo sistema hidropônico, tecnologia que tem ganhado adeptos, principalmente no Estado de São Paulo. 
 
Segundo o CEPEA (Centro de Pesquisas Econômicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, unidade da Universidade de São Paulo - CEPEA/ESALQ/USP), não há dados oficiais de cultivo protegido no Brasil. No entanto, de acordo com dados do Comitê Brasileiro de Desenvolvimento e Aplicação de Plásticos na Agricultura (Cobapla), o Brasil é líder na América do Sul, com 22 mil hectares de produções protegidas, sendo que a metade está no Estado de São Paulo. Em termos mundiais, o plantio protegido cresceu 400% em 20 anos – em 2010 somava 3,6 milhões de hectares. Entre os principais produtos cultivados nesse tipo de ambiente, no Brasil, destacam-se morango, uva, maçã, folhosas, pimentão, tomate e mini/baby hortaliças.
 
O engenheiro agrônomo Gilberto Wassano,  há 20 anos, largou um emprego estável para se arriscar na agricultura e perdeu toda a sua produção, em Lins-SP, em razão das fortes chuvas que atingiram a sua lavoura. Após essa tentativa frustrada, decidiu montar uma estufa para cultivar hortaliças. Hoje, além de prestar consultoria aos produtores da região, possui 5.500 m² de estufas onde produz hortaliças como tomate, pepino, pimentão, folhosas,  e 1600 m² onde se dedica à produção de mudas. Depois do fracasso da primeira tentativa, Wassano explica que optou pelo cultivo protegido porque “os riscos diminuem principalmente no verão, pois a região sofre com calor e chuva forte. No caso das verduras, mesmo se for tempo de colheita, nós não conseguimos tirar, exatamente quando temos os melhores preços de mercado”.
 
Cultivo protegido deve ter acompanhamento técnico adequado

É imprescindível que o produtor que queira adotar o sistema de cultivo protegido não o faça de forma indiscriminada.  “O cultivo protegido é somente uma desvantagem quando feito sem acompanhamento técnico adequado. Caso seja feito inadequadamente, pode-se aumentar o problema do produtor. O exemplo clássico é aquele produtor que tinha uma estufa baixa e aberta (somente a cobertura) e por uma questão de querer controlar as pragas resolve fechar a estufa com tela anti-inseto. Com a ventilação reduzida, a estufa atinge temperaturas de até 50 graus. Nesse caso, ele pode até perder a produção e os empregados, pois estes não querem mais trabalhar”, explica Andrés da Silva, consultor da Estufas Agrícolas Comércio e Assessoria.
 
Maria do Carmo Zorzenon Simi, vice-presidente do Cobapla, conta que “muitos produtores gastaram dinheiro e não tiveram os resultados esperados e isso deixou uma impressão muito ruim deste tipo de cultivo”. Uma situação que aconteceu na introdução do sistema de culltivo no país e se repete até os dias de hoje “Não houve orientação técnica para o seu bom desempenho, mas existe uma série de trabalhos em campo para reverter esta impressão e demonstrar o real valor deste tipo de cultivo. O Cobapla hoje está se empenhado em movimentar toda a cadeia ligada a este meio para uma série de trabalhos de demonstração prática de seu desempenho” destaca.
 
Não é para leigos
 
Segundo o engenheiro agrônomo e consultor da HVIDAL Consultório Agronômico, Hugo Vidal, “a plasticultura é uma tecnologia que no Brasil tem sido propagada por leigos, que  entende somente do plástico em si. Isso tem sido umas das causas do nosso atraso na adoção da tecnologia pelos horticultores, que por desconhecimento levam em  consideração principalmente o preço do filme plástico, que tem funções diferenciadas para cada tipo  e objetivo do cultivo, posição geográfica e espécie cultivada. Por essa razão, muitos produtores são resistentes à adoção da tecnologia, pois foram mal orientados no passado e muitos amargaram prejuízos com o sistema”. 
 
Como exemplo de cultivo protegido tecnificado, da Silva apresenta países como México, Estados Unidos, Holanda, Reino Unido, Turquia, Rússia e os países do norte da África. Já países como a China - que possui de longe a maior superfície em cultivo protegido no mundo - investem também em estufas simples, com aquecimento passivo (solar), mas também em projetos mais tecnificados. “Para dar um exemplo, no México empresas produzem mais de 650 toneladas de tomate tipo salada por hectare em estufas com aquecimento e CO2, ou mais de 250 toneladas por  hectare em telados. Os produtos saem embalados das estufas (ou packing houses adjacentes às estufas) e vão diretamente para os supermercados. A distribuição é global: do centro do México para o Canadá, do Marrocos para a Inglaterra, de Israel à França”, conta da Silva.
 
Vantagens e dificuldades do sistema
 
Pelo fato deste tipo de cultivo poder alterar as condições climáticas e, desta forma, amenizar as sazonalidades dos produtos, o cultivo protegido pode ajudar na regularidade de oferta no mercado. “Dentro da estufa é possível ter ciclos mais longos e/ou independentes das condições do clima exterior, possibilitando uma produção estável durante todo o ano. Esse é um dos principais atrativos para os produtores, pois produção estável é sinônimo de renda estável”, afirma da Silva. No entanto, segundo Sérgio Pimenta, consultor da Ecologia Aplicada Consultoria, “a pouca adesão dos produtores ao sistema de cultivo protegido se deve à dificuldade de crédito – pois as financeiras ainda tem muito receio, por ser uma atividade relativamente nova -, e à falta de assistência técnica específica. Existe uma carência de técnicos que façam o manejo dentro das estufas”. Maria do Carmo acredita que, para os produtores que conhecem este tipo de cultivo, o grande impedimento ainda é o alto custo. “O Cobapla está trabalhando para a divulgação dos sistemas de financiamento que já estão disponíveis”, destaca.
 
Como alternativa, da Silva sugere que pequenos agricultores se unam em cooperativas e associações de produtores. “Desta forma, eles podem ter melhores chances com produtos de nicho, como é o caso do tomate tipo uva”. A vice-presidente do Cobapla indica que o conhecimento sobre as diferentes formas de cultivo protegido é fundamental para o crescimento do sistema, e da Silva completa afirmando que “é preciso investir em tecnologia, logística e conhecimento para poder competir neste mercado”.
 
Jovens no negócio
 
Na região Oeste do estado de São Paulo, onde Pimenta presta consultoria, a cada quatro estufas, três são dirigidas por jovens com idades abaixo de trinta anos, e um dos benefícios dessa característica é o fato de que estes estão mais abertos a tecnologias. “Ver os jovens interessados me motiva a trabalhar na área e me dá perspectiva de aumento constante e acelerado da produção de hortaliças dentro de estufas. É uma atividade que se assemelha a uma atividade da cidade, um trabalho urbano”, anima-se o consultor.
 
Em uma análise menos otimista, Vidal afirma que o número de produtores de hortaliças, vem diminuindo a cada ano, “devido a uma série de fatores que não valorizam o trabalho profissional, como por exemplo o mercado comprador que só visa preço, produtores que não se atualizam, entre outros. As condições climáticas do Brasil são muito variáveis na maioria das regiões produtoras,  as doenças foliares em geral se desenvolvem com presença de umidade e água livre sobre as folhas, tornando assim  um dos fatores mais importantes quanto a sanidade da cultura e uso racional de agroquímicos, defensivos da cultura. Logo, não temos mais espaço para amadores, por mais que alguns produtores tenham “muita experiência”, mas não recebem uma orientação profissional personalizada, desvinculada da comercialização de produtos. O cultivo protegido, quando bem orientado, pode corrigir plenamente este fator”.  
 
Estufas viabilizam produção orgânica
 
A produção orgânica está crescendo dentro das estufas e atingindo níveis equivalentes aos da produção convencional, que por sua vez, busca cada vez mais um cultivo responsável social e ambientalmente. 
 
Como exemplo, um estudo da Universidade Federal de Pelotas, de 2011, afirma que os sistemas orgânicos de produção de tomates são desafiados pela impossibilidade do controle de pragas e doenças em cultivo a céu aberto. Foram avaliados quatro ambientes: abrigo coberto com polietileno sem tela; abrigo coberto com polietileno com tela citros (malha 1,0mm); telado em abrigo sem cobertura de polietileno, mas revestido na parte superior e laterais com tela citros; a céu aberto. Ao fim do estudo, entre outras conclusões, os pesquisadores entenderam que abrigos de cultivo, cobertos com polietileno, providos de tela anti-insetos nas laterais, viabilizam, técnica e economicamente, o sistema orgânico de produção de tomates. 
 
O produtor Wassano dedica parte de sua capacidade produtiva a orgânicos, pois, segundo ele, o solo arenoso da região de Lins, no interior paulista, é a principal causa da alta incidência de nematóides e por isso, ele precisa utilizar muita matéria orgânica e “diminuir o uso de agrotóxicos e agroquímicos, o que colabora para um alimento mais saudável”.
 
“O cultivo próximo aos centros urbanos e até mesmo o cultivo urbano (estufas nas cidades em prédios, terrenos e usinas abandonados) se multiplica à medida que a noção do local food ou foot print se desenvolve. No Brasil, caso a economia se mantenha crescendo, vamos assistir à uma revolução na plasticultura. Tudo o que estamos vendo hoje é apenas o início de uma grande indústria que esta nascendo para ficar”, analisa da Silva.

Vantagens do cultivo protegido
 
Os especialistas ouvidos pela reportagem apontaram as principais  vantagens do cultivo protegido:
 
Produção sustentável (econômica, social e tecnicamente);
 
Disponibilidade anual;
 
Alta produtividade;
 
Uso de água e insumos com mais eficiência;
 
Controle de origem e certificação;
 
Qualidade superior dos produtos;
 
Melhores condições de trabalho;
 
Maior renda para o produtor;
 
Uso intensivo do solo, possibilitando o uso de áreas menores;
 
Redução do risco financeiro da atividade agrícola;
 
Proteção da cultura de granizo, do excesso de água em tempo de chuvas abundantes, ventos fortes e outras adversidades climáticas;
 
Possibilidade de alterar as condições climáticas para torná-las mais adequadas à cultura;
 
Redução do uso de defensivos agrícolas diminuindo o custo do cultivo em relação a este item;
 
Rotina de trabalho mais organizada. 
 
Dicas para cultivo protegido
 
Para o produtor que está pensando em trocar o cultivo convencional pelo protegido, os especialistas dão as seguintes dicas:
 
Tenha certeza do que quer;
 
Antes de investir e começar o cultivo pesquise o mercado, analise o espaço que tem e seu poder de investimento;
 
Consulte um profissional que entenda a cultura a ser implantada, em todas suas fases;
 
Antes de decidir qual filme plástico adotar, faça a integração entre o fornecedor do plástico e o técnico consultor da cultura;
 
Adquira o filme plástico de fabricante que tenha em seu quadro um engenheiro agrônomo que possa discutir com o agrônomo consultor em mesmo nível;
 
O preço é importante, mas a qualidade dos materiais utilizados afetará a relação custo-benefício do sistema;
 
Maneje o ambiente, controlando temperatura, umidade e ventilação;
 
Instale sistema de irrigação apropriado para a cultura explorada;
 
Use palha no solo, pois diminui a temperatura para as raízes absorverem melhor os nutrientes;
 
Aumente o teor de matéria orgânica no solo, pois ajuda no enraizamento profundo.
 
Use técnicas de agricultura orgânica, como o controle biológico. Mas sempre com a orientação de um técnico agrícola ou de um agrônomo.
 
 
 
Ambiente protegido - envolve controle de luz, umidade relativa, temperatura, CO2, água e nutrientes.
 
Fitotron - ambiente totalmente artificial, de laboratório, só usado no Brasil em instituições de pesquisa. No exterior também é usado em expedições espaciais.
 
Casa de vegetação - ambiente totalmente controlado. É utilizada em instituições de pesquisa e comercialmente na produção ou cultivo de plantas de alto valor agregado como matrizes e algumas espécies de flores.
 
Estufa em arco ou duas águas - ambiente parcialmente controlado. Utilizado no Brasil para cultivo de flores, alguns tipos de hortaliças, formação de mudas e produção de cogumelos.
 
Estufa 'Londrina" - improvisação de estrutura a partir da cultura da uva, para obtenção do "efeito guarda chuva". É popular pelo baixo custo, mas de baixíssima eficiência como proteção de cultivo. No Brasil, é usada para hortaliças e frutas.
 
Túnel alto - baixo nível de controle do ambiente.  No Brasil, quase sempre representa problemas de excesso de temperatura aliada à dificuldade de manejo do cultivo. Usado para hortaliças e fruticultura.
 
Túnel baixo - baixo nível de controle do ambiente e também apresenta dificuldade de manejo, principalmente no verão. No Brasil, é utilizado para hortaliças folhosas, morango e melão. 
 
Viveiro, telado ou "casa de sombra" - controle limitado do ambiente, que substituiu os antigos "ripados". Usado na produção de mudas e de algumas espécies de flores.
 
Estufim - controle limitado do ambiente, usado principalmente para germinação e enraizamento. No Brasil, seu uso é frequente em instituições de pesquisa e viveiristas. 
 
 
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