Algas encarecem custos do tratamento da água para abastecimento
23/06/2014
 Depósito de poluentes nos reservatórios favorece o desenvolvimento de algas e cianobactérias, encarecendo o tratamento da água para consumo. Soluções tecnológicas de monitoramento contribuem para solucionar os problemas de qualidade da água

Por Larissa Straci
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O Brasil está na 112ª posição no quesito saneamento em um levantamento feito com 200 países, segundo estudo divulgado pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, em março de 2014. Segundo a pesquisa, somente 38% de todo o esgoto gerado no Brasil recebe algum tipo de tratamento.

Uma das principais consequências do despejo de esgotos nos corpos d’água é a proliferação de algas e cianobactérias. O esgoto in natura é prejudicial à natureza por conter uma grande quantidade de nutrientes, como fósforo e nitrogênio, fertilizantes e alta concentração de matéria orgânica, o que acelera o crescimento de algas nos ambientes aquáticos. Fernando Antônio Jardim, coordenador e analista de laboratório hidrobiológico da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA) explica que a proliferação excessiva de algas e cianobactérias nas águas represadas é causada por diversos fatores, entre eles baixa turbulência da água, excesso de luz e entrada de nutrientes. “O risco está sempre associado à ingestão dessa água sem o devido tratamento, pois algumas cianobactérias (algas azuis) podem produzir e liberar cianotoxinas nas águas, que podem trazer prejuízos ao fígado e ao sistema nervoso central”.

Mauro Banderali, especialista em instrumentação ambiental da Ag Solve comenta que as algas são organismos uni ou pluricelulares, que na presença de nutrientes e luz, convertem a matéria orgânica em mais matéria e ao decompor o gás carbônico, devolvem oxigênio ao meio. “A alga atua como qualquer planta que, ao receber nutrientes e água, se multiplica na capacidade que o ambiente a mantém. Sendo um ambiente rico em nutrientes, sua multiplicação é veloz. Embora o processo ocorra de modo geral com todas as algas, as que possuem pigmentos de Ficocianina e Ficoeritrina (caracterizadas pelas colorações azul, verde-oliva e até vermelho) são especialmente monitoradas pelas empresas de saneamento, pois acumulam no interior de suas células toxinas neurológicas e hepáticas que podem provocar problemas de saúde”, informa.

As algas e cianobactérias podem ocasionar problemas tanto para a recreação e balneabilidade, quanto de potabilidade, ao conferir gosto e odor na água. “Algumas espécies, principalmente do grupo das cianobactérias, podem produzir toxinas que ocasionam riscos à saúde humana. Inclusive, se naquele local houver captação de água para usos de abastecimento público, também será necessário um tratamento mais intensivo”, analisa Maria do Carmo Carvalho, gerente do setor de Comunidades Aquáticas da Companhia Ambiental do Estado de S. Paulo (CETESB).

Com altas quantidades do pigmento clorofila, as chamadas florações desses organismos tornam a água esverdeada. “As cianobactérias possuem em volta de suas células e colônias uma espécie de mucilagem e dentro de suas células, vesículas de gás (aerótopos), que propiciam a sua flutuação na coluna d´água. Com a decomposição dessa biomassa de algas e cianobactérias, há a produção de gases como o sulfeto, por exemplo, que confere à água gosto e odor indesejáveis”, especifica Jardim.

Ocorrência dos organismos gera mudança na forma de tratamento e eleva custos

A alteração na qualidade provocada pelas algas dificulta e aumenta os custos do tratamento da água para abastecimento humano. “Essas florações aumentam sobremaneira os custos operacionais, pois além da necessidade de lavar os filtros das estações mais vezes, há também um consumo excessivo de produtos químicos durante o tratamento da água. Além disso, eleva-se o número de análises realizadas para garantir uma água dentro dos padrões de potabilidade exigidos pela legislação vigente”, aponta o analista da COPASA.

A gerente da CETESB ressalta que, geralmente, em tratamentos convencionais são utilizados produtos como cloro e fluocluantes. “Quando há floração de organismos como cianobactérias, considerando os riscos das toxinas, o tratamento utilizado é o carvão ativado, que é adsorvente e é o produto mais eficiente para isso. Além do o carvão ativado ser um produto caro para realizar o tratamento, a empresa de saneamento vai utilizar uma maior quantidade de produtos para transformar essa água em ideal para o consumo”.

Conforme explica Jardim, o tratamento inicia-se já no ponto de captação onde uma quantidade de ar é injetada na água, reduzindo assim a absorção de nutrientes pelas algas e cianobactérias. “Também é utilizada uma dosagem de carvão ativado na água para que ocorra a adsorção de compostos que alteram o gosto e o odor da água”, explica.

Tecnologias colaboram com detecção e prevenção

De acordo com Mauro Banderali, a tecnologia é uma aliada no monitoramento e detecção de algas e cianobactérias. “O contaminante se dissolve na água e geralmente nem mesmo é notado, sem uma análise química e biológica mais detalhada. Para a realização dessa análise, a tecnologia mais indicada são as sondas da qualidade da água AP 2000AP 5000 e AP 7000, capazes de mensurar parâmetros físico-químicos e específicos, através dos sensores óticos e ISE, o que inclui clorofila “A”, Ficoeritrina e Ficocianina, em um sensor por variável. Desta forma, podemos ver que as algas são reflexo de um corpo d’água que recebe cargas contaminantes muito acima das suas capacidades de decomposição sustentável à vida daquele ambiente”. Além disso, ele informa que a Ag Solve possui duas soluções tecnológicas de monitoramento exclusivas para algas e cianobactérias, que são os aparelhos Unilux Trilux. “Ambos contribuem para que as empresas de saneamento possam assegurar uma água de maior qualidade para a população”, afirma ele.

Altas temperaturas influenciam na proliferação de algas

Em épocas de seca, como a que o Estado de São Paulo está passando no momento, uma maior proliferação de algas pode ocorrer. “Como os poluentes e nutrientes já estão nos reservatórios, quando o nível d’água baixa, há uma maior concentração destes poluentes e, portanto, a falta d’água resulta em uma menor diluição do que é lançado. Obviamente, há uma tendência em haver um maior desenvolvimento de algas e cianobactérias na época de seca”, aponta Maria do Carmo. Segundo a especialista, um outro fator que merece destaque é a temperatura ideal para o desenvolvimento das algas e cianobactérias, que é entre 19° e 30°. “O clima do Brasil é favorável ao desenvolvimento de cianobactérias, pois esta é uma temperatura que temos ao longo de, praticamente, o ano todo”, declara.

Segundo Fernando Jardim, “a proliferação excessiva de algas e de cianobactérias na água pode ser evitada com um intenso trabalho de educação ambiental, para controlar o depósito de lixo e esgoto sem tratamento na água dos nossos rios e represas. Além disso, é importante exigir o tratamento dos efluentes gerados nas residências e indústrias”.

 
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