Rios brasileiros: descaso com nossas águas
24/11/2013
Por Larissa Straci
ArtCom A.C. para Boletim InfoAmbiental

 
Falta de planejamento e investimentos no setor de saneamento estão diminuindo a qualidade da água dos rios brasileiros, que precisa ter monitoramento para contribuir com sua melhoria

A baixa qualidade da água nos rios brasileiros é um dos principais problemas enfrentados pelas grandes cidades atualmente. A falta de planejamento e de investimentos no setor de saneamento está “matando” os mananciais brasileiros. Estudo divulgado pela SOS Mata Atlântica, em março de 2012, mostrou análises feitas em 49 rios de 11 estados brasileiros. Na ocasião, nenhum deles apresentava uma situação considerada boa ou ótima: 75,5% foram classificados como "regular" e 24,5% com nível "ruim". Segundo a pesquisa, os dois principais responsáveis pela contaminação são a agricultura irrigada, que capta grande volume de água e devolve aos mananciais agrotóxicos e erosão; e a falta de saneamento básico, que permite que o esgoto doméstico seja lançado nos corpos d'água.

Somente no Rio Tietê, que corta a capital paulista, 80 mil litros de água por segundo circulam e desta quantidade, metade é de esgoto despejado pela população que rodeia a maior cidade do Brasil. Dados do IDS 2010 - Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que dos 34 municípios que compreendem a região metropolitana de São Paulo, 19 não fazem tratamento de esgoto, portanto, diariamente são lançadas 690 toneladas de esgoto no rio mais importante do estado.

Mauro Banderali, especialista em instrumentação hidrometeorológica da Ag Solve, explana que no Brasil os rios mais poluídos se encontram em áreas urbanas. “O alto nível de urbanização das cidades brasileiras causa um impacto significativo nos rios que as atravessam. A melhor ação quanto à recuperação da qualidade das águas ainda é a de prevenção e o cuidado para que poluentes não sejam lançados no ambiente sem o tratamento adequado”, afirma.

Lupercio Ziroldo Antonio, presidente da Rede Internacional de Organismos de Bacia (RIOB) e da Rede Brasil de Organismos de Bacia (REBOB), secretário técnico permanente da Rede Latino Americana de Organismos de Bacia (RELOB) e governador do Conselho Mundial da Água relata que enfrentamos em nosso país um grande paradoxo. “Ao mesmo tempo em que somos considerados uma potência hídrica aos olhos do mundo, pois detemos perto de 14% da água doce do planeta, degradamos nossos rios e córregos com esgoto não tratado, alto grau de assoreamento, além de contribuirmos com a não proteção de as margens destes cursos d’água”, comenta.

Recuperação dos rios brasileiros

O Estado de São Paulo, em função das políticas públicas implementadas, principalmente pela ação dos Comitês de Bacia que são formados por municípios-governo do estado-sociedade civil, tem hoje uma situação privilegiada no território brasileiro no que se refere à recuperação e conservação dos rios e córregos. “Este mesmo processo de gestão participativa e compartilhada realizado pelos Comitês, que beneficia, produz e induz práticas exitosas de proteção de nossos mananciais também vem sendo desenvolvido com sucesso nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, entre outros”, garante Lupercio Ziroldo Antonio. No entanto, segundo o presidente da REBOB, ao retratar a poluição de nossos rios e córregos em grau mais avançado, verificamos que nos Estados das regiões Centro-Oeste e Norte, onde há água em abundância, pouca preocupação existe no que se refere à proteção dos recursos hídricos. “São nestas regiões que pouco ou quase nada se trata de esgoto urbano e praticamente nenhuma política pública conservacionista mais objetiva é implementada para garantir o cuidado com as águas superficiais e subterrâneas”.

O problema do esgoto

Para Mauro Banderali, o risco de contaminação decorrente das atividades humanas gera a necessidade de um controle mais rígido da qualidade dos rios, córregos e lagos. “As águas dos rios e barragens ou as subterrâneas quando contaminadas trazem consigo uma carga de substâncias tóxicas, muitas vezes não monitoradas pelos laboratórios das empresas de abastecimento. Tais substâncias podem atingir até 80 mil diferentes organismos ou moléculas químicas originárias de processos industriais, dos agroquímicos, da indústria de fármacos, entre outros”, confirma.

Para Lupercio Ziroldo Antonio, o maior vilão da qualidade da água dos rios é o esgoto, pois não há tratamento destes efluentes urbanos para grande parte da população, o que faz aproximadamente 140 milhões de pessoas façam suas necessidades diretamente nos cursos, rios e córregos. “No entanto, neste campo, o que falta são investimentos que retirem as águas residuais dos cursos d’água, o que faria com que estes voltassem a ter vida. Mas, em minha opinião, o assoreamento também é um grande vilão, que colabora diretamente com a morte dos rios. O problema é causado por estradas rurais mal cuidadas, retirada de proteção ciliar, etc. Rios assoreados podem nunca mais ser recuperados”, ressalta.

Antonio explica que um município que não trata seus esgotos está praticamente impedindo que os municípios de jusante na bacia possam ter a água limpa para abastecimento ou forçando-os a ter que investir muito para este fim. “Em síntese, eu diria que, em sua grande maioria, os governantes não têm noção de que, ao não cuidar dos recursos hídricos, estão “matando” futuros investimentos que poderiam trazer qualidade de vida aos cidadãos além de emprego e renda”, complementa.

Água deve ser prioridade

Segundo o especialista da Ag Solve, “questões que comprometem a biologia aquática e a disponibilidade de água para o abastecimento público devem ser eliminadas através de políticas públicas eficientes, aplicação de tecnologias, monitoramento e remediação das contaminações dos recursos hídricos”.  Na opinião do governador do Conselho Mundial da Água, o Brasil necessita que a água seja inserida clara e objetivamente na agenda política do país. “Somente com a implementação de políticas públicas urgentes em grande parte do território brasileiro, com investimentos pesados de recuperação de nossos cursos d’água, fundamentalmente nas áreas de mananciais, é que de médio a longo prazo poderemos alterar este processo de descaso com os recursos hídricos na grande parte do país”, conclui.

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