Monitoramento do esgoto é um investimento na saúde
19/08/2013
 Oito bilhões de litros de esgoto sem tratamento são lançados todos os dias nas águas brasileiras, contaminando todo o ecossistema hídrico


*Por Mauro Banderali
 
Despejo de esgoto sem tratamento nos rios e reservatórios causa incontáveis danos ao ambiente e influencia a qualidade da água que será consumida pela população. Segundo dados do Ministério das Cidades (SNIS - Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, 2010), o atendimento em coleta de esgoto no Brasil chega somente a 46,2% dos brasileiros. Do total de esgoto gerado no país, apenas 37,9% recebe algum tipo de tratamento e a região com maior índice de esgoto tratado é o Centro-Oeste, 
com 43,1%. Pesquisa do Instituto Trata Brasil de 2010 aponta que de todo o esgoto gerado nas 100 maiores cidades do Brasil, apenas 36,28% são tratados. Isto significa que quase 8 bilhões de litros de esgoto sem tratamento são lançados todos os dias nas águas brasileiras, contaminando todo o ecossistema hídrico.
 
Cada real investido em saneamento gera uma economia de R$ 4,00 em saúde, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde, 2004). Por essa razão, o investimento em tratamento de esgoto e em monitoramento da qualidade dos recursos hídricos deve ser prioridade no país. Ainda segundo a OMS, nos países em desenvolvimento, 70% da população rural e 25% da população urbana não dispõem de abastecimento apropriado de água potável, o que transmite inúmeras doenças e mata pelo menos 2 milhões de pessoas ao ano.
 
Os problemas com a qualidade da água começam, quase sempre, na captação para abastecimento público. As águas dos rios e barragens ou as subterrâneas quando contaminadas trazem consigo uma carga de substâncias tóxicas, muitas vezes não monitoradas pelos laboratórios das empresas de abastecimento. Tais substâncias podem atingir até 80 mil diferentes organismos ou moléculas químicas originárias de processos industriais, dos agroquímicos, da indústria de fármacos, entre outros.
 
Os contaminantes em água podem ser classificados em duas categorias: biológicas e químicas. As contaminações biológicas são causadas por seres vivos ou vírus. As sondas de qualidade da água não conseguem detectar estes seres, mas podem ser utilizadas como meios secundários. Ao monitorar o oxigênio dissolvido, a clorofila, as cianobactérias ou os nutrientes, a partir dos resultados positivos, pode-se iniciar uma amostragem e teste laboratorial de maior frequência.
Mas para os contaminantes químicos, além do uso de sondas automáticas para medição de características físico-químicas como temperatura, oxigênio dissolvido, condutividade elétrica, pH, ORP (Oxidation Reduction Potential - Potencial de Óxido-Redução), turbidez e nutrientes, pouco se pode colaborar. Para isso, existem alguns equipamentos mais específicos, que podem ser aplicados em campo para uma primeira verificação, como os instrumentos óticos. Atualmente, vazamentos de hidrocarbonetos podem ser detectados na água a longas distâncias, como o caso do acidente no Golfo do México, em que várias instituições e países monitoraram o impacto em suas águas.
 
A água clorada está isenta de agentes vivos como vírus e bactérias, porém a contaminação química originária de atividades agrosilvopastoris, industriais e de comércio não é eliminada. A maioria das estações de tratamento tratam apenas cor e potabilidade, mas exames de laboratórios mais aprofundados não são aplicados em atividades rotineiras (de intervalo horário/diário), o que possibilita uma discussão sobre a qualidade da água distribuída.Nenhuma empresa estoca água clorada, até porque ela perde qualidade. Portanto, entre a coleta em um rio e a distribuição não se passam mais que poucas horas, o que exige um controle de qualidade severo, 24 horas por dia.
 
Regularmente nas águas captadas são feitas amostras para análises físico-químicas e laboratoriais, atendendo às regulamentações municipais, estaduais e federais, além dos padrões internos de cada empresa de distribuição, podendo realizar ainda o monitoramento com o uso de sondas de qualidade da água.
Além dos padrões com os limites de toxicidade da água ou lançamento de efluentes, é necessária a adoção de uma política pública ampla de monitoramento da distribuição da água superficial ou subterrânea, como forma de avaliar a qualidade dos rios, lagos e poços. Esta será uma ferramenta ativa para acompanharmos os efeitos da contaminação dos recursos hídricos e reduzirmos os riscos à saúde pública.
 
Em cada estado de nosso país, é decepcionante observar que sempre no entorno de centros urbanos, os rios são impiedosamente castigados com toda tipo de detritos e de esgotos, transformando-se em águas mortas a céu aberto. Para quem é de São Paulo, envergonha o odor e a cor do Rio Tietê e a represa Billings. Para os cariocas, as condições da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas são vergonhosas, citando apenas dois exemplos. Tenho certeza que cada um de nós conhece um exemplo no cenário urbano de como a qualidade da água é negligenciada.
 
Devemos encarar a água como fonte estratégica para a saúde e a economia. É necessária a implementação de pontos de quantificação de contaminantes, análises e procedimentos de monitoramento, com o uso da mais alta tecnologia existente, para preservar um recurso finito e cada dia mais contaminado. A reversão dessas contaminações demandará mais recursos financeiros, tempo e tecnologia. Porém, é melhor investirmos no hoje a aguardar um colapso nos sistemas que nos abastecem.

*Mauro Banderali é especialista em instrumentação hidro-meteorológica e diretor da Ag Solve, empresa especializada em soluções tecnológicas para monitoramento nas áreas de hidrologia e meteorologia

Fonte: Revista Pollution Engineering
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