Monitorar para não faltar
11/07/2013
 Poço de monitoramento avalia quantidade e qualidade da água subterrânea no Rio Grande do Sul. Foto: Marcelo Goffermann (CPRM)


Projeto de monitoramento está sendo implantado na cidade de Manaus (AM), que enfrenta rebaixamento do aquífero, e nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, para avaliar quantidade e qualidade das águas subterrâneas
 
Por Larissa Straci
ArtCom A.C. para a Revista Água e Meio Ambiente Subterrâneo

 
A cidade de Manaus está situada na confluência dos rios Negro e Solimões, que ao se encontrarem, formam o Rio Amazonas, maior rio da Terra tanto em volume de água quanto em extensão. Mas, apesar da capital amazonense estar situada ao lado do rio de maior descarga líquida do planeta, as zonas norte e leste da cidade e o Distrito Industrial (zona sul), são abastecidos essencialmente por água subterrânea. Cerca de 75% das águas consumidas em Manaus são provenientes do Rio Negro e os 25% restantes, do aquífero Alter do Chão. “Trata-se de um percentual bastante significativo e que mostra a importância das águas subterrâneas para Manaus”, garante o hidrogeólogo do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Carlos José Bezerra de Aguiar.
 
Segundo dados da CPRM, Manaus possui cerca de 15 mil poços que, em sua maioria, foram construídos sem autorização dos órgãos técnicos ou acompanhamento profissional. “Apesar de estar localizada sobre um dos maiores aquíferos do país, o Alter do Chão, com 200 metros de espessura e 170 metros de coluna d’água, numa região de chuvas superiores a 2.200 mm/ano, as águas subterrâneas da zona leste de Manaus estão sendo rebaixadas continuadamente desde os anos 80, quando as perfurações começaram. Naquela época, as águas se encontravam a aproximadamente 20 metros de profundidade e hoje estão a mais de 140 metros. Assim, muitas nascentes secaram e o abastecimento de água na cidade fica cada vez mais complicado, pois as vazões vêm caindo de forma expressiva”, detalha Aguiar.
 
A preocupação com a construção desenfreada de poços e com o rebaixamento dos aquíferos levou a CPRM a implantar a Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas (RIMAS), que possibilitará a realização da Carta Hidrogeológica da Região Metropolitana de Manaus, estudo que pretende avaliar a quantidade e a qualidade da água subterrânea disponível na cidade. Para realizar o monitoramento, a CPRM perfurou sete poços tubulares, com profundidade de até 80 metros, onde serão instalados equipamentos que irão monitorar as variações no nível das águas subterrâneas e a qualidade.
 
Aguiar comenta que a primeira versão da Carta Hidrogeológica foi feita no ano de 2002, pelo próprio hidrogeólogo, baseada em um grande acervo técnico que a CPRM possuía na época. Entretanto, a CPRM pretende atualizá-la, “desta vez, com dados levantados pela rede RIMAS, projeto de nível nacional e que atualmente, possui cinco poços monitorados em Manaus. Contudo, para a segunda versão da Carta, deverão ser atualizados dados de pelo menos 500 poços”, complementa ele.
 
A Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas contribuirá para um maior conhecimento do rebaixamento provocado pelos poços de uma determinada área. “Como o projeto contempla também o levantamento de dados de chuva, será possível conhecer a velocidade de infiltração das águas e o percentual infiltrado”, esclarece Aguiar.
 
Monitoramento dos Aquíferos em SC e RS
 
Os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul contabilizam juntos cerca de 25 mil poços, conforme indicam os dados da CPRM. Porém, estima-se que somente no estado gaúcho existam mais de 100 mil deles. Além disso, cerca de 70% da água distribuída pela rede pública no Rio Grande do Sul é proveniente de aquíferos.
 
Em razão do grande número de poços e da importância da água subterrânea para os dois estados do sul do Brasil, a Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas (RIMAS), da CPRM, está sendo implementada. “A rede de monitoramento de águas subterrâneas dará um grande auxílio na compreensão hidrogeológica dos aquíferos monitorados. Além de gerar e difundir dados novos, permitirá à CPRM estabelecer uma série histórica da evolução das variações dos níveis de água dos aquíferos sob condições naturais, assim como das variações hidroquímicas, se existirem”, ressalta o geólogo da CPRM e pesquisador em geociências na área de hidrogeologia, Marcelo Goffermann.
 
Atualmente existem 32 unidades de monitoramento da rede nos dois estados, sendo 23 no Rio Grande do Sul e nove em Santa Catarina. Até o final de 2013, estão previstas as instalações de mais 20 unidades e, até 2014, serão cerca de 60 poços monitorados. “A rede funciona através de poços cedidos por parceiros do projeto, como companhias de saneamento (Companhia Riograndense de Saneamento - CORSAN - no RS e Companhia Catarinense de Águas e Saneamento - CASAN - em SC) que disponibilizam para o monitoramento poços que não estão mais em atividade e através da perfuração de novos poços, construídos por empresas contratadas e fiscalizadas pela CPRM em áreas públicas ou particulares, cedidas para a perfuração e instalação destes poços”, comenta o geólogo.
 
Os aquíferos que estão sendo monitorados nos dois estados são Guarani e Costeiro. Goffermann explana que cada unidade de monitoramento compreende um poço e uma estação pluviométrica. “O monitoramento é basicamente quantitativo. São medidas as informações dos níveis da água ao longo do tempo. Os equipamentos de monitoramento instalados nos poços são ajustados para medir automaticamente os níveis da água a cada hora e a coleta (download dos dados) é feita a cada três meses. Com relação aos aspectos qualitativos, as análises físico-químicas são realizadas no início do monitoramento e repetidas a cada ano, para controle”, confirma ele.
 
Segundo o geólogo, as informações do monitoramento serão difundidas pela CPRM para a sociedade, que poderá utilizar estes dados confiáveis na elaboração e execução de estudos sobre estes aquíferos. “Além disso, este monitoramento servirá de ferramenta auxiliar na gestão de água subterrânea por parte dos estados, principalmente no que diz respeito às concessões de outorga de águas subterrâneas nestas áreas. É bom destacar que isto se dará na medida que a rede de monitoramento for expandida, aumentando-se assim o volume de informações”, complementa ele.
 
Rede será ampliada e e terá alerta qualitativo
 
A Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas (RIMAS) foi implantada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) em 2009, após amplos debates com profissionais de diversos setores relacionados a recursos hídricos e apresentações em fóruns específicos. “Desde a sua inauguração, a rede encontra-se em contínuo processo de ampliação e aperfeiçoamento, mediante campanhas regulares de obtenção de dados”, descreve Thales de Queiroz Sampaio, diretor de Hidrologia e Gestão Territorial da CPRM.
 
Atualmente a rede RIMAS compreende 256 poços de monitoramento implantados em 20 aquíferos sedimentares, em 18 estados brasileiros. “Trata-se de uma rede de caráter essencialmente quantitativo, onde as variações de nível d’água são registradas e armazenadas em equipamentos automáticos instalados nos poços. É de se ressaltar, contudo, que foi concebido um sistema de alerta qualitativo, que consiste em análises completas (ao menos 43 parâmetros físico-químicos e químicos inorgânicos), quando da instalação do poço de monitoramento e a cada cinco anos, e em análises parciais semestrais de parâmetros considerados indicadores, como nitrito, nitrato, cor, pH, condutividade elétrica, oxigênio dissolvido, temperatura e potencial de oxirredução”, ressalta o diretor de Hidrologia e Gestão Territorial da CPRM.
 
Sampaio afirma que a CPRM tem buscado, durante o planejamento e implementação da rede, a cooperação de órgãos gestores estaduais e de empresas de saneamento. “Este modelo de cooperação, além do compartilhamento de dados, permite a assimilação das demandas dos estados, a otimização de recursos técnicos, financeiros e humanos e auxilia na padronização dos métodos de coleta de dados, armazenamento e processamento”.
 
Segundo o diretor, atualmente a CPRM dispõe do Sistema de Informações de Águas Subterrâneas (SIAGAS) que disponibiliza dados diversos a respeito de poços tubulares em todo o país, incluindo os da rede de monitoramento.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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