Mais nutrição para o melão
13/05/2013
Fertirrigação contribui para melhora na qualidade da fruta mais exportada em 2012 e para o aumento da produtividade do meloeiro, além de reduzir a ocorrência de doenças

Por Larissa Straci
ArtCom AC para Revista Plasticultura
 
O cultivo do melão está localizado no Nordeste, principalmente no Ceará e Rio Grande do Norte, Estados responsáveis pela produção de mais de 400 toneladas por ano da fruta. A produção brasileira, que é de 19.701 hectares plantados, gera 499.330 toneladas de melão ao ano e segue para o mercado interno e para Holanda, Reino Unido, Espanha, Itália, Alemanha, Irlanda e Estados Unidos, os principais importadores. 
 
Em 2012, o Brasil exportou 181,7 toneladas de melão, com um crescimento de 7,2%, comparado a 2011. Cloves Ribeiro Neto, gerente técnico do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), afirma que “o Brasil se especializou neste cultivo que vem crescendo ao longo dos anos. Hoje somos um dos maiores produtores do mundo e produzimos as variedades preferidas pelos consumidores. O melão é a principal fruta exportada e, no mercado interno, o consumo vem crescendo devido à boa qualidade dos frutos oferecidos”.
 
O retorno econômico do melão depende de vários fatores como custo de produção, produtividade, comercialização, preço de mercado e, especialmente, da qualidade dos frutos, que para Ribeiro Neto é fator determinante para ganhar a preferência do consumidor. “O melão é uma das frutas mais prejudicadas quando não possui sabor ou teor de açúcar adequado, pois o consumidor deixa de comprá-lo; por esse motivo, é importante a valoração do produto de qualidade”, complementa.
 
A obtenção de frutos de qualidade vai depender do uso de tecnologias adequadas, como a escolha pela melhor variedade, irrigação por gotejamento, cultivo em alta densidade e a fertirrigação. No campo ou em cultivo protegido, a fertirrigação é essencial para melhor nutrição da cultura, que resultará em frutos mais bonitos, com melhor brix e também mais saudáveis.
 
Carlos Barth, engenheiro agrônomo da empresa de irrigação NaanDanJain, explica que plantas mais saudáveis e bem nutridas respondem com melhor produtividade e frutos mais uniformes e, por isso, a fertirrigação é uma ótima opção para esse tipo de cultura, pois disponibiliza diariamente as quantidades de água e nutrientes exigidas. “Deficiência de potássio em meloeiros reduz drasticamente a fotossíntese, com consequente redução no teor de sacarose dos frutos, resultando em frutos de baixa qualidade. Trabalhos científicos mostram que quanto menor a área foliar, menor a quantidade de açúcares do fruto”, confirma Barth.
 
Fertirrigação: plantas mais saudáveis e nutridas
 
Como no Brasil o cultivo do melão é realizado predominantemente em regiões secas, a irrigação é uma técnica indispensável para o sistema de produção, pois além de garantir maior eficiência na aplicação de fertilizantes, minimiza o uso de mão de obra e diminui a movimentação no campo, o que contribui para a conservação do solo.
 
A fertirrigação, técnica de adubação que leva nutrientes ao solo cultivado por meio da água da irrigação, permite reduzir perdas de nutrientes, aumentar a eficiência do uso do solo e a produtividade do meloeiro. Para Vitor Hugo Artigiani Filho, diretor técnico da empresa Valagro do Brasil, um elemento essencial para obter o resultado desejado com fertirrigação é o planejamento, que vai alinhar as necessidades do cultivo com a disponibilidade de produtos para atender a demanda nutricional. “Ainda devemos levar em consideração que cada propriedade deve identificar e ajustar os diferentes programas de fertirrigação, tanto por características locais (solo, clima, qualidade da água) quanto pela capacidade interna da propriedade em adotar as diferentes tecnologias disponíveis e práticas de manejo”.
 
Na opinião de Luiz Andrade, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa Petroisa Irrigação, para implantar a fertirrigação no meloeiro, os profissionais responsáveis devem orientar os produtores com base em: análise de solo, análise de água da irrigação e curva de absorção dos nutrientes. Além disso, é importante “conhecer a taxa de aplicação de água do sistema de irrigação do cliente; saber a taxa de injeção da solução nutritiva do equipamento a ser utilizado; orientar o agricultor a fazer manejo para manter o ambiente radicular úmido e aerado ao mesmo tempo; instalar extratores de solução do solo e saber como coletá-lo; monitorar ou ensinar o produtor a monitorar a condutividade elétrica (CE) e o pH da solução que as raízes estão envolvidas; preparar ações corretivas durante o desenvolvimento da lavoura; conhecer as fontes de nutrientes e suas interações positivas e negativas; incentivar o produtor a utilizar alguma ferramenta para avaliar a umidade do solo, além de mantê-lo sempre atualizado”.
 
Um ponto importante a ser observado na fertilização é o correto balanceamento de todos os nutrientes. O excesso é tão prejudicial quanto a falta, diz Barth. “Outro ponto para observar na fertirrigação é o tempo de avanço da solução de fertilizantes dentro do sistema de irrigação. Após o término de aplicação do fertilizante via água, o sistema de irrigação deverá funcionar durante o tempo de percurso do fertilizante até o último emissor. Caso seja desligado antes deste tempo não haverá correta distribuição do fertilizante na área irrigada”.
 
Artigiani Filho observa que é essencial o acompanhamento do programa no dia a dia, pois, muitas vezes, as plantas no campo revelam comportamentos diferentes do esperado, inclusive deficiências nutricionais. “Por melhores que sejam os procedimentos de análise de solo, folha e água, nada substitui a capacidade natural das plantas em expressar excessos e carências nutricionais. Esta observação diária será responsável pelos ajustes nos programas de fertirrigação".
 
Bons resultados exigem cuidados. Entre eles, Barth detalha: usar fertilizantes totalmente solúveis em água e compatíveis com a água de irrigação, fazer somente a mistura de fertilizantes compatíveis entre si, iniciar a aplicação com o sistema de irrigação pressurizado, observar o tempo de avanço no final da aplicação e balancear corretamente os nutrientes ao longo do desenvolvimento da cultura. “É necessário também fazer corretamente a aplicação da água, pois o excesso provoca a lavagem de fertilizantes do perfil do solo e a falta reduz o aproveitamento pelas plantas. O monitoramento das fertirrigações com relação à salinidade do solo também é muito importante.”
 
Produtividade e investimento
 
O correto posicionamento dos nutrientes no momento em que ocorrem as demandas, por meio da fertirrigação, proporciona altos ganhos de produtividade. Gil Simões, agrônomo da empresa Yara Brasil Fertilizantes, confirma que por ser adubação localizada com produtos solúveis, há um grande incremento na produção. “Melão é uma cultura rápida, seu ciclo é curto e por isso não pode faltar água (capacidade de campo) e nutrientes para que ocorra o aumento da produtividade”.
 
“Muitas vezes nos cultivos tradicionais, temos a oferta de água, mas a solução do solo está muito empobrecida, sem suportar a quantidade e o correto equilíbrio entre os elementos.
 
Desta forma, as raízes vão absorver poucos elementos diante da real demanda da planta. Quando usamos a fertirrigação, unimos água e nutrição balanceada. Desta forma, podemos oferecer a quantidade de nutrientes (NPK- Nitrogênio, Fósforo e Potássio) com o tempero correto (micronutrientes) para atender de forma pontual as necessidades do cultivo”, exemplifica Artigiani Filho.
 
Quanto ao investimento necessário para começar a usar a fertiirrigação no cultivo de melão, Carlos Barth afirma que se o produtor já dispuser do sistema por gotejamento, o incremento de um injetor de fertilizantes é de custo relativamente baixo para os injetores tipo venturi ou bombas centrífugas. “Um injetor de fertilizantes é suficiente para um sistema de irrigação. O custo por hectare é reduzido para sistemas de irrigação de até 50 ha. O custo de um injetor tipo venturi é a partir de 300 reais. Para os sistemas mais sofisticados, o custo total pode chegar a 15 mil reais”.
 
Luiz Andrade ressalta que o grande investimento para a produção de melão com o uso de fertirrigação é a capacitação. “É importante frequentar cursos, palestras e outros eventos. Iniciar com um curso de cultivo hidropônico é interessante. É preciso também perder o “medo” da química e da tabela periódica, porque apesar do fator biológico preponderante na agricultura, a fertirrigação é uma ciência exatíssima”, complementa o gerente.
 
Fertirrigação diminui a ocorrência de doenças
 
Segundo Cloves Ribeiro Neto, do Ibraf, “na cultura do melão ocorre ataque de diversos agentes patogênicos como fungos (cancro cítrico, oídio, míldio, fusariose, antracnose), bactérias (mancha aquosa, barriga d’agua), nematoides (meloidoginose) e vírus (mosaico, amarelão)”. O excesso de água prejudica o desenvolvimento das plantas e também favorece o aparecimento de doenças. Mas a fertirrigação pode colaborar para diminuir a ocorrência das doenças no meloeiro.
 
Luiz Andrade comenta que para o desenvolvimento de uma doença, o microrganismo deve ter disponível umidade, temperatura adequada e uma fonte de alimento. “Esta fonte de alimento é fornecida por plantas desequilibradas (suscetíveis). Os primeiros produtos da fotossíntese são carboidratos de 3 ou 4 carbonos, que devem ser utilizados pela planta para “sintetizar” outras substâncias com mais carbonos. Se, por exemplo, faltar o Zinco que pode exigido para uma sintetização específica, ocorre o acúmulo destes carboidratos e então, começa a instalação da doença”.
 
Através da eficiência no fornecimento de nutrientes, as plantas ficam mais equilibradas, mais resistentes e menos atrativas aos patógenos. “A quantidade correta de nutrientes colocada de acordo com as necessidades da planta, sem faltas ou excessos, resultam em uma planta mais resistente. O método de irrigação é fator muito importante na sanidade da cultura”, assegura Carlos Barth.
 
Segundo Ramon Maciel Nóbrega, representante da empresa de fertilizantes TradeCorp, “a técnica da fertirrigação não reduz diretamente o uso de agrotóxicos porque o controle de pragas em doenças depende de uma série de fatores bióticos e abióticos. Contudo, é sabido que em uma planta mais equilibrada nutricionalmente há menor ataque de insetos sugadores e doenças fúngicas, o que contribui para o uso racional dos agrotóxicos e, assim, proporciona possível redução”.
 
Produtos contribuem para eficiência
 
Os sistemas de fertirrigação disponibilizados pelo mercado atualmente, segundo o engenheiro agrônomo Carlos Barth, vão “desde os mais simples, com bombas centrífugas próprias para produtos químicos que injetam uma solução por vez, até os mais sofisticados, que injetam o produto controlando o pH e a Condutividade Elétrica (CE), podendo injetar até 5 soluções de fertilizantes ou defensivos simultaneamente”.
 
Sistemas modernos e eficientes na condução de água precisam de produtos que atuem na planta para que seus frutos atendam os desejos do consumidor que quer doçura e maciez à mesa. De acordo com Ramon Maciel Nóbrega, da Tradecorp, os produtos que contribuem para maior eficiência na fertirrigação, protegendo os equipamentos, reduzindo custos de manutenção e resultando em frutos que atendam o mercado consumidor são, de maneira geral, aqueles que têm um índice salino baixo. “Estes produtos contribuem diretamente na conservação do sistema, reduzindo custos de manutenção e melhorando seu aproveitamento pelas plantas. Atualmente, compostos orgânicos (bioestimulantes) atuam diretamente na melhoria do aproveitamento metabólico dos fertilizantes, o que em alguns casos pode representar uma redução nas quantidades aplicadas, preservando todo o sistema soloágua-planta e também os equipamentos”.
 
De acordo com Vitor Hugo Artigiani Filho, diretor técnico da Valagro do Brasil, “em geral, a escolha dos produtos contribui para a manutenção e eficiência do sistema de fertirrigação; assim, sempre posicionamos a necessidade do uso de produtos dedicados, mas um ponto que tem forte impacto na eficiência e qualidade da fertirrigação está relacionado ao manejo realizado. Os maiores problemas que observamos, no dia a dia, é que muitas falhas ocorrem ainda no manejo e no planejamento nutricional”.
 
*Nota da Redação 
Bibliografia consultada: Irrigação e fertirrigação em fruteiras e hortaliças. Cap. 23. Irrigação e fertirrigação na cultura do melão. Embrapa Informação Tecnológica, 2011.



Para mais informações, leia a Revista Plasticultura - Edição 28:
www.artcomassessoria.com.br/imagens_noticias/Plasticultura28-new.pdf

 
© 2017 - ArtCom Assessoria de Comunicação - webdesign CG Propaganda