Plantas medicinais: mercado ganha força e vendas são oportunidade para produtores
15/04/2013
Por Larissa Straci
ArtCom AC para Revista Plasticultura

A busca por plantas medicinais para o tratamento de doenças tem crescido exponencialmente no Brasil nos últimos anos. As ervas, normalmente utilizadas como remédios caseiros, estão invadindo também a indústria farmacêutica. Em razão do avanço das pesquisas, os laboratórios estão desenvolvendo cada vez mais medicamentos com base nos princípios ativos de plantas. Por conta do crescimento do setor, agricultores e indústrias enxergaram no cultivo de ervas medicinais uma grande oportunidade de negócios.
 
É o caso do agricultor Paulo Jesus Pereira, de Salesópolis, interior de São Paulo, que há 22 anos transformou as plantas medicinais em sua principal fonte de renda. “Paulo das ervas”, como é conhecido, produz 700 espécies de plantas e cerca de duas toneladas por espécie ao ano. Proprietário da empresa Recanto da Lua Crescente, ele produz chás, tinturas, extratos, cremes, xampus e sabonetes com essências naturais. Segundo ele, a principal dificuldade no início da produção foi ter que educar as pessoas para que elas pudessem utilizar as ervas medicinais. “Além disso, o produtor não encontra mudas e sementes e por esse motivo tem que investir muito do seu tempo, da sua pesquisa e correr riscos, para a produção de mudas e de sementes de boa qualidade”, comenta o agricultor que direciona suas vendas para o consumidor final e redes de supermercados.
 
Paulo das Ervas iniciou sua trajetória com as plantas medicinais em razão de uma grave infecção hospitalar, “nesse momento, conheci as ervas medicinais e de lá para cá eu venho trabalhando a minha saúde com elas”, confirma. As principais plantas comercializadas pelo produtor são: cavalinha, utilizada para cortar o apetite e emagrecer; panacéia, usada no tratamento da psoríase e de problemas renais; quitônia, popularmente conhecida como pata-de-vaca, para o tratamento da diabete, e a baleeira, contra artrite, reumatismo e dores musculares. Para o agricultor, a produção de plantas medicinais é um negócio rentável. “Hoje atendo pessoas no Brasil inteiro e no exterior”, complementa.
 
O produtor de plantas medicinais Estefano Dranka, proprietário da indústria Chamel, está no ramo há 20 anos. “Eu fui apicultor durante 12 anos, por esse motivo, o nome da empresa “Chamel”. Curiosamente, quase todas as plantas melíferas são medicinais e, como sempre gostei de coisas novas, comecei a estudar e pesquisar esta possibilidade de renda alternativa”, comenta ele. Atualmente, Dranka produz de 80 a 100 toneladas de ervas ao ano. “Do total, 60% das plantas que comercializamos são produção própria”. Ele destaca as mais procuradas: “espinheira santa, camomila, melissa, ginkgo biloba, capim-limão, maracujá (Passiflora incarnata), Centella asiatica, quebra-pedra, jambu (também conhecido como agrião-do-Pará), calêndula, erva-cidreira, alcachofra, malva e guaco”.
 
Responsável pela pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias na produção e industrialização de plantas medicinais, aromáticas e condimentares, alimentos funcionais e mel, a empresa produz também cápsulas, fitoterápicos, sachês e shakes. “As plantas são vendidas para laboratórios, atacadistas, distribuidoras e para consumidores finais, através de farmácias ou supermercados”, comenta o proprietário. Conforme informa Dranka, a produção é rentável “desde que se trabalhe com conhecimento”.
 
Fernanda Oliveira de Gaspi, docente do Centro Universitário Herminio Ometto de Araras (Uniararas) e coordenadora da especialização em Fitoterapia, salienta que “a população tem buscado alternativas naturais para o tratamento de doenças, tais como as plantas, pois anseiam por resultados mais efetivos e com menor incidência de efeitos colaterais”.
 
Produção de ervas
 
A produção de plantas medicinais é uma atividade com potencial de ser lucrativa e sustentável, quando se utiliza sistema agrícola adequado e desde que sejam seguidas as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Segundo o pesquisador do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pedro Melillo de Magalhães, a atividade é potencialmente rentável no Brasil em razão do clima favorável para várias espécies.
 
“No entanto, é preciso tomar algumas precauções, tais como: definir a priori o tamanho da área a ser cultivada e onde atuar na cadeia produtiva (sementes, mudas, planta seca ou extratos padronizados); coincidir as exigências da espécie com as características do solo e ambiente (este zoneamento deve ser feito individualmente para cada espécie) e estabelecer acordos prévios (produtor e comprador) para definir a quantidade a ser produzida e o valor dos produtos”, afirma Magalhães.
 
Fernanda de Gaspi, da Uniararas, ressalta que as principais dificuldades no cultivo de plantas medicinais são “a falta de bons materiais de propagação (sementes e mudas de qualidade), identificação botânica correta e a grande variação em diversos aspectos de cada espécie; por exemplo, nas respostas às condições de fertilidade, à água, aos diferentes tipos de solos, nos diferentes tipos de dormência das sementes, na morfologia das espécies, no seu desenvolvimento, na resistência a pragas e doenças, entre outros fatores, gerando inúmeros problemas técnicos que podem dificultar o cultivo”. 
 
Entre as vantagens, Fernanda cita a sustentabilidade e a integração da conservação da natureza com a produtividade no setor agrícola e o desenvolvimento da agricultura familiar de plantas medicinais, “pois a produção destas plantas representa uma atividade econômica, produtiva e extrativista, mas que não causa danos ao ambiente”. 
 
Produzir para não extrair
 
A maior parte das plantas medicinais utilizadas na indústria fitoterápica ainda é proveniente de extrativismo, o que compromete a qualidade do produto e pode levar algumas espécies à extinção. Portanto, este fator é mais um estímulo para o cultivo de plantas medicinais. Na opinião de Fernanda Oliveira de Gaspi, “a tendência é o extrativismo perder espaço por causa de legislações sanitária e ambiental. Além disso, as indústrias necessitam de matérias primas de qualidade e com regularidade de oferta”.
 
Para Pedro Magalhães, da Unicamp, o cultivo proporciona o fornecimento regular de matéria-prima homogênea, “o que garante a longevidade da atividade com o mesmo padrão de qualidade, o que não se consegue com material proveniente de coleta extrativista”. 
 
Devido a esses fatores e ao aumento do consumo de medicamentos fitoterápicos, a produção de plantas medicinais se torna uma ótima oportunidade de negócio para os pequenos produtores, porém, ainda falta orientação técnica. “Em quase a totalidade das regiões brasileiras, faltam informações técnicas para os produtores interessados no cultivo de plantas medicinais, sendo necessária a criação de recursos para suprir esta ausência, como a capacitação destes profissionais”, complementa a docente da Uniararas.
 
Para começar, capacitação
 
O Paraná é o maior produtor de ervas medicinais do Brasil. Segundo dados de 2008, o Estado é responsável por 90% da produção do país devido ao clima e solo que favorecem o plantio. Visando à importância econômica deste tipo de cultivo, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Paraná (Senar-PR) desenvolve há três anos, cursos e treinamentos com base na produção de 38 espécies de plantas medicinais, aromáticas e condimentares que são importantes economicamente para o Estado. 
 
De acordo com Neder Maciel Corso, engenheiro florestal e coordenador dos cursos de cultivo de PLAMAC – plantas medicinais, aromáticas e condimentares do Senar-PR – “a demanda por cursos com plantas medicinais existe há mais de 10 anos, porém, por sermos uma instituição de Formação Profissional Rural, sempre tínhamos a preocupação em focar no cultivo e não entrar nas questões de saúde. No entanto, em 2008, conhecemos a pesquisadora Izabel Radomski (Embrapa Florestas), que foi responsável por escrever o manual do curso e capacitar nossos instrutores. Um fator motivador foi disponibilizarmos mais uma alternativa de renda aos produtores rurais interessados”.
 
O primeiro curso ocorreu em março de 2009, em Piraquara (Região Metropolitana de Curitiba). “De lá até aqui foram realizados mais de 750 treinamentos de cultivo de plantas medicinais, apenas no Estado do Paraná”, explica Corso. São realizadas orientações técnicas em relação ao preparo da área, definição da espécie, tratos culturais, colheita, beneficiamento e armazenamento. Hoje o curso conta com 15 instrutores, em sua maioria agrônomos. 
 
“Priorizamos trabalhar com produtores rurais interessados no cultivo de plantas medicinais. Mas não é raro acontecer de recebermos público muito mais interessado em saber como usar do que como cultivar. Neste contexto, em 2010, ampliamos a carga horária do curso de 16 para 24 horas, de forma que, após cumprida a carga horária sobre as questões de cultivo, abordamos conteúdos relativos à manipulação e ao uso”, garante o coordenador.
 
Mais informações sobre os cursos do Senar-PR podem ser obtidas pelos telefones (41) 2169-7988 e (41) 2106-0401 ou no site www.sistemafaep.org.br. 
 
Mundo dos Fitoterápicos
 
A indústria mundial de fitoterápicos movimenta no Brasil cerca de um bilhão de dólares ao ano e, por esse motivo, as plantas medicinais, principal matéria-prima para a indústria fitoterápica, são importantes para o desenvolvimento da indústria farmacêutica. Apesar de, no Brasil, os fitoterápicos representarem menos de 3% do mercado total de medicamentos, é um setor que tem crescido nos últimos anos. 
 
Conforme explica Fernanda de Gaspi, da Uniararas, os fatores que colaboram para a expansão da Fitoterapia, tratamento com plantas medicinais, são: “a crescente divulgação das plantas medicinais e seus derivados pelos meios de comunicação, preços normalmente mais acessíveis, a confiabilidade que as pessoas possuem na ação terapêutica das plantas utilizadas desde o início da civilização, a implantação da Fitoterapia no Serviço Público de Saúde, o aumento da oferta de cursos na área”. 
 
A Portaria Interministerial do Ministério da Saúde n.º 2960, de 9 de dezembro de 2008, aprovou o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos com a finalidade de promover ações como a melhoria do acesso da população às plantas medicinais e aos fitoterápicos, o desenvolvimento industrial e tecnológico, a promoção do uso sustentável da biodiversidade brasileira e a preservação do conhecimento tradicional. A portaria ampliou a lista de fitoterápicos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), cujos produtos são definidos pelo Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Porém, desde 2007, o SUS fornece alguns medicamentos fitoterápicos considerados eficazes e aprovados pela ANVISA. 
 
De acordo Pedro Melillo de Magalhães, da Unicamp, “muitos grupos de pesquisa do país se dedicam hoje ao estudo das plantas medicinais encorajados pela politica do governo que, em 2008, aprovou o Programa de Plantas Medicinais e Fitoterapia”. Para ele, esta ação promoveu a melhoria da qualidade em vários níveis sobre a eficácia e segurança, além de definir protocolos para a produção e o registro de produtos. “Muitas prefeituras adotaram programas de fitoterapia com objetivo de disponibilizar tais medicamentos ao SUS, atendendo demanda da própria população em busca de tratamento natural. Neste cenário, também a indústria farmacêutica se interessa pela produção destes medicamentos”, confirma o pesquisador.
 
 
 
COMO SÃO FEITAS AS PESQUISAS COM ERVAS?
 
As pesquisas com plantas medicinais para a obtenção de novos fármacos são realizadas por equipes multidisciplinares, envolvendo agrônomos, biólogos, químicos, farmacêuticos, entre outros. “Estudos etnobotânicos (analisam a história e a relação das plantas nas sociedades) e enofarmacológicos (resgatam o conhecimento popular sobre o uso de plantas medicinais) são importantes ferramentas para a pesquisa de plantas e a descoberta de novos fármacos”, confirma Fernanda de Gaspi. 
 
Para Magalhães, essas pesquisas podem ser divididas em dois segmentos inter-relacionados: Eficácia/Segurança e Produção. “Nos estudos de eficácia e segurança, ou seja, para saber se a planta tem ação terapêutica e sua toxicidade, são utilizados dados do uso popular, realizados testes clínicos, monitorados por análises químicas e biológicas, enquanto na produção são desenvolvidos estudos de propagação, cultivo, melhoramento, processos pós-colheita e tecnologia farmacêutica”, completa ele. 

 

Para mais informações, leia a Revista Plasticultura - Edição 27:
http://www.artcomassessoria.com.br/imagens_noticias/Plasticultura27-ArtCom(site).pdf

 
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