Mercado Pulverizado
17/04/2013
 Concorrência desleal, altos encargos tributários e busca incessante do consumidor por produtos cada vez mais baratos são alguns dos motivos apontados para o perfil atual do mercado de perfuração de poços

Por Larissa Straci
ArtCom AC para Revista Água e Meio Ambiente Subterrâneo

 
Em diversos setores da economia, a consolidação e o crescimento das empresas se reflete na formação de grandes grupos empresariais. Porém, isso não ocorre atualmente no setor de perfuração de poços no Brasil, já que a maioria das empresas são de pequeno e médio porte e as reais características do mercado não permitem grandes investimentos e, assim, inibem o aparecimento de grandes organizações. Apesar do aumento da demanda de água subterrânea e do crescimento da economia brasileira nos últimos anos, o mercado de perfuração ainda é considerado pulverizado e frágil em diversos aspectos. 
 
Para o geólogo Arnaldo Correia Ribeiro, sóciogerente da empresa Hidrocon e ex-presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), a pulverização decorre, por um lado, da extensão continental do país e por outro, pelos baixos investimentos públicos e privados dirigidos ao setor. “O baixo volume de recursos financeiros movimentados pela perfuração de poços não estimula grandes empresários. No mercado brasileiro, predominam empresas informais e de pequeníssimo porte. Geralmente são empresas individuais, na qual o proprietário é o próprio operador. Não estão submetidas a nenhum encargo social, apresentam baixo custo operacional,nenhuma tecnologia operacional e normalmente geram produtos desqualificados”.
 
Mariano José Smaniotto, geólogo e diretor da empresa Leão Poços Artesianos, afirma que o mercado de poços no Brasil se pulverizou nas regiões mais desenvolvidas e concentradas devido ao aumento do consumo de água nessas áreas. “Esta demanda gerou o incremento do mercado”. Segundo ele, a prestação de serviços de perfuração de poços tubulares profundos varia de acordo com o clima. “Nos períodos de chuva o mercado desaquece, mas quando ocorrem períodos de pouca chuva ou até uma estiagem mais prolongada, o mercado aquece. As empresas existentes muitas vezes não conseguem atender a demanda nestes períodos, gerando espaço para o surgimento de outras empresas e consequentemente pulverizando o mercado”, confirma.
 
Fragmentação e mudança de perfil são recentes
 
O geólogo e presidente da Associação Paulista das Empresas Perfuradoras de Poços Profundos (APEPP), Wlamir Marins, comenta que o mercado tornou-se fragmentado há poucos anos. “No passado a situação era um pouco diferente. Havia empresas que poderiam ser consideradas grandes e algumas chegaram a ter mais de 40 equipamentos de perfuração em operação. Porém, de 20 anos para cá, devido à facilidade no financiamento de equipamentos, foram surgindo várias empresas. Além disso, a busca incessante do mercado consumidor por produtos cada vez mais baratos inviabiliza o crescimento de empresas de grande porte e bem estruturadas, além dos encargos tributários serem desestimulantes”.
 
Conforme diz Fernando Mancini de Oliveira, proprietário da Constroleo Poços Artesianos, “diferente da construção civil, a perfuração de poços demanda investimento em maquinários específicos para a realização do serviço, o que demanda custos elevados de investimento inicial. Empresas dispostas a aplicar vultosas quantias não são regra no mercado, principalmente quando o payback dos investimentos é longo. Empresas de grande porte visam lucratividade alta e retorno rápido, o que não é característica deste setor”.
 
Na opinião de Juares Alberto de Oliveira, presidente da Associação dos Perfuradores de Poços Artesianos do Rio Grande do Sul (APERGS), como a atividade de prestação de serviços é regionalizada “as empresas acabam se especializando em um tipo de geologia. Além disso, as pequenas empresas tem mais flexibilidade de tomada de decisões e mudança de rumo. A desvantagem é a falta de ordenamento e cooperação entre os perfuradores como um todo”. 
 
O ex-presidente da ABAS e diretor da DH Perfuração de Poços, Carlos Eduardo Giampá comenta que a partir do ano 2000, o mercado de perfuração de poços no Brasil passou a ser atendido, em sua maioria, por empresas privadas. “As empresas públicas, em grande escala, principalmente no Nordeste, foram sendo desativadas, apesar de ainda operarem em alguns estados. Essa pulverização é explicada pela saída das empresas públicas. Outra importante razão do aparecimento de muitas empresas é a falta de um controle público das mesmas, que na sua maioria operam de forma irregular, tanto nos aspectos jurídico/administrativos quanto no aspecto técnico, sem profissionais responsáveis habilitados”, analisa ele.
 
Crise, falta de controle, fiscalização e capacitação afetam o setor
 
Arnaldo Correia Ribeiro aponta que, de um modo geral, as empresas de perfuração vivem em crise vagando de norte a sul do país em constantes deslocamentos, buscando atividades nas demandas localizadas, sem público alvo definido ou área de atuação estabelecida. “O índice de desemprego atual é o principal fato gerador desse tipo de atuação econômica. O sondador desempregado gera uma empresa individual, o geólogo ou o engenheiro também desempregado gera uma empresa de pequeníssimo porte. Elas concorrem no mercado em iguais condições e geram no papel propostas que não ficam a dever a nenhuma empresa formalizada”. Segundo o diretor, as empresas que operam atualmente são sobreviventes de um cenário econômico marcado pela sazonalidade de demanda, por uma política tributária exorbitante e por uma concorrência desqualificada e desigual.
 
Conforme afirma Smaniotto, diretor da Leão Poços, um dos maiores problemas atuais no setor é a falta de controle da perfuração de poços no Brasil. “Hoje não há nenhum órgão para exercer este controle ou até mesmo um centro de pesquisa para informações na área e, por isso, os dados são obtidos pela experiência de quem está no ramo. Deveria existir um órgão específico de controle e armazenamento de dados e não um órgão simplesmente arrecadador de taxas. Com isso, estes dados poderiam ser acessados quando necessário, trazendo maior segurança tanto para o prestador de serviço como para o cliente”.
 
Na área privada, a falta de conhecimento e fiscalização por parte do contratante induz a realização de obras que comprometem não só o resultado do poço, mas também a proteção e utilização adequada dos aquíferos, na visão de Giampá. Já na área pública, ele destaca como características do mercado: a falta de profissionais capacitados para a elaboração de projetos adequados a seus locais e objetivos, custeio das obras inadequadas, com valores de materiais aquém de seus custos de aquisição, licitações em que não se valoriza a qualificação técnica, somente os preços, concorrências com requisitos e preços aviltantes, preponderando a presença de empresas com baixa qualificação técnica e financeira.
 
Preços interferem na qualidade dos poços
 
A fragilidade do mercado e a luta das empresas pela sobrevivência resultam em uma concorrência cada vez mais acirrada, o que faz o preço pelo serviço despencar, além de aflorar graves problemas nas relações de mercado. Segundo Mariano Smaniotto, diretor da Leão Poços Artesianos, por ser hoje um mercado fragmentado e a concorrência tão acirrada, não existe um parâmetro que determine um valor para este tipo de prestação de serviços. “Cada empresa coloca o valor que considera conveniente e, na maioria das vezes, sem um cálculo correto, causando situações em que os valores não cobrem nem mesmo seu custo. A consequência é que não há investimento para ampliação e melhoria da empresa”.
 
Segundo a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), enquanto a obtenção da licença de perfuração e a outorga para a perfuração de um poço regular leva por volta 6 meses, o poço irregular é perfurado em 2 ou 3 dias e naturalmente que a um custo muito menor, por isso, o tempo de resposta dos estados tem sido um dos principais fomentadores da perfuração ilegal no Brasil.
 
Conforme avalia Arnaldo Correa Ribeiro, da Hidrocon, “levam grandes vantagens as empresas informais de baixo custo operacional e mesmo as formalizadas, quando optam por reduzir custos, baixando a qualidade técnica do poço artesiano. Essa é a chamada concorrência desigual que tanto reclamam as empresas mais qualificadas”. De acordo com Ribeiro, os órgãos estão reduzindo cada vez mais seus preços de referência nas concorrências públicas e, o mercado privado utiliza esse modelo para pagar cada vez menos por poços mais qualificados. “Esse parece um efeito prático até desejado pelas leis do mercado quando a disputa ocorre com o mesmo nível técnico. Nesse caso, a concorrência desleal é responsável por acarretar um desequilíbrio da relação qualidade/preços que tem levado empresas importantes a se retirarem do mercado”, exemplifica.
 
Wlamir Marins, da APEPP, comenta que a única “vantagem” com a pulverização do mercado é obtida pelo consumidor, que com a concorrência tem a oportunidade de custos mais baixos. “Porém, o que parece ser vantagem torna-se desvantagem, pois o produto entregue tem perdido qualidade de forma intensiva”, assegura.
 
Sem lucratividade, setor não investe em tecnologia e modernização
 
Os baixos investimentos para o desenvolvimento de novas tecnologias, pesquisas e modernização dos equipamentos de perfuração pode ser considerado outro empecilho para o crescimento do setor. “Talvez isso venha de encontro com a pulverização do mercado. Pequenas empresas e pouco investimento em tecnologia não geram uma demanda para que o mercado de desenvolvimento de novas tecnologias se fortaleça. Se não há mercado consumidor para gerar retornos financeiros, não há interesse no investimento em desenvolvimento de novas tecnologias”, explica Mariano José Smaniotto, da Leão Poços Artesianos.
 
Para Juares Alberto de Oliveira, da APERGS, “nossa indústria é fraca, pois tem que competir com produtos estrangeiros. No Brasil, os custos são altos e as indústrias não têm incentivos para crescer e se fortalecer”. De acordo com Fernando de Oliveira, da Constroleo, “muitas das ferramentas de perfuração e peças de reposição dependem de fabricantes internacionais, o que muitas vezes impacta no prazo de execução da obra
em razão do tempo que levam os procedimentos de importação”.
 
O geólogo Wlamir Marins, da APEPP, comenta que quaisquer setores que se utilizem de tecnologia para execução de seus serviços precisam ter avanços tecnológicos para obter crescimento tanto técnico como mercadológico. “Não é o que acontece com nosso setor. Com a dificuldade do mercado em criar grandes companhias - que teriam condições de investir em novas pesquisas e metodologias - o mercado consumidor tem pouca chance de enxergar o setor e isto dificulta o seu crescimento”, acrescenta.
 
Smaniotto explica que no Brasil, todo equipamento mais moderno tem que ser importado de países desenvolvidos tecnologicamente, como Estados Unidos e China. Esses equipamentos importados sofrem uma grande incidência de impostos de importação, o que aumenta o custo para as empresas. “Seria muito interessante se existisse empresas nacionais para fornecer os equipamentos necessários para o setor, mas pelo tamanho da maioria das empresas de perfuração de poços e a falta de recurso das mesmas para investir em modernização, esse mercado de tecnologia não tem uma demanda eficiente para ser atrativo para investidores”.
 
O setor de perfuração pode voltar a crescer?
 
A existência de um mercado sedimentado e sólido na área de perfuração de poços tubulares depende da capacidade do segmento de solucionar os problemas atuais. Arnaldo Ribeiro, da Hidrocon, enumera procedimentos que o Brasil precisa desenvolver como: complementar os estudos sobre recursos hídricos subterrâneos; divulgar o produto poço com suas vantagens em relação a outros mananciais; estabelecer uma legislação voltada para a qualificação do produto e a proteção do mercado; desenvolver um programa para a formação do setor; fortalecer as entidades de fiscalização da profissão; definir linhas de financiamento específicas para perfuração de poços, conscientizar as empresas públicas contratantes, introduzir o conceito “parceria” entre contratante e contratado e, além disso, buscar junto aos órgãos governamentais o encaminhamento de muitos desses problemas para obter, além de respaldo legal, as condições e recursos para implantação das reformas necessárias. “Estabelecidas essas condições, é possível em futuro bem próximo uma verdadeira corrida para a utilização de água subterrânea e, assim, surgirá um mercado de perfuração de poços que se estabelecerá de forma definitiva”, confirma Ribeiro.
 
Falta consciência que prestadores de serviços, comércio, indústria e universidades formam um conjunto que deveriam ser entendidos pelo Estado como necessários para sociedade, ressalta Juares Alberto de Oliveira, da APERGS. “Os perfuradores no Rio Grande do Sul, por exemplo, são tratados ‘quase como contraventores’, quando na verdade atendem uma demanda da sociedade que os órgãos públicos não conseguem”. Segundo ele, o segmento precisa de um melhor planejamento na gestão dos recursos hídricos. “O setor não precisa de incentivos. Precisa apenas que os órgãos gestores não atrapalhem quem trabalha corretamente”.
 
A falta de conhecimento é um dos grandes empecilhos para o desenvolvimento do setor no Brasil, na avaliação de Fernando Mancini de Oliveira, da empresa Constroleo. “Não existe em nosso país cursos e treinamento para qualificação de pessoal para atuar neste setor. O treinamento de mão de obra acaba sendo realizado em campo, durante a perfuração, por profissionais que foram adquirindo conhecimento prático, e assim, os vícios vão se multiplicando”. Outro fator, segundo Oliveira, é a carga tributária dos equipamentos, que é muito alta. “Como a perfuração de poços envolve a aplicação de diversos tipos de materiais, indiretamente paga imposto sobre imposto e este custo necessariamente é repassado ao consumidor. Incentivos fiscais e redução de impostos ajudariam substancialmente a alavancar a perfuração de poços no país”.
 
Para Carlos Eduardo Giampá, da DH Perfurações, o setor deve adotar ações como: “uma campanha institucional para o combate aos poços clandestinos – sem licenças de perfuração e outorga de uso; a ABAS deve realizar em cima de seu credenciamento de empresas, a qualificação oficial das mesmas, buscando implementar suas qualidade e quantidade; promoção de cursos para capacitação de pessoal das empresas públicas contratantes e gestoras sobre os projetos, custeios, operação e manutenção dos poços; campanhas institucionais com participação da Secretaria Nacional de Recursos Hídricos (SNRH) + Agência Nacional de Águas (ANA), órgãos gestores estaduais, com cursos e divulgação na mídia sobre a importância da utilização adequada e conservação das águas subterrâneas”.
 
“A única condição de evoluirmos o setor de perfuração de poços no Brasil seria a união entre todos os profissionais, empresas e órgãos reguladores que trabalham na área. Enquanto os perfuradores pensarem apenas em como obter lucros, os profissionais em sobreviverem, os órgãos reguladores em criar mais obstáculos ao mercado e os consumidores em buscar custo baixo a qualquer preço, não chegaremos a lugar algum. É preciso desenvolver o setor para que novas tecnologias possam dar condições para as empresas obterem lucros, para que os profissionais valorizem seus serviços apresentando melhores resultados e para que os órgãos reguladores “escutem” o que o setor precisa, fiscalizem e regulem com maior eficiência e que o consumidor final pague o justo pelo produto e esteja satisfeito”, finaliza o presidente da APEPP, Wlamir Marins.
 
Para mais informações, leia a Revista Água e Meio Ambiente Subterrâneo, da ABAS - Edição 31:
http://www.abas.org/imagens/revista31.pdf
 
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