Comum de dois
27/03/2013
Estudo revela semelhanças geológicas nos solos das Regiões Metropolitanas de Curitiba e de São Paulo e pode colaborar para a gestão das águas nos dois estados
 
Por Gabriela Padovani
ArtCom AC para Revista Água e Meio Ambiente Subterrâneo


 
Os terrenos geológicos das regiões de São Paulo e de Curitiba sofreram um processo de formação semelhante. As bacias sedimentares foram formadas entre 20 e 15 milhões de anos atrás, devido a um processo tectônico que atingiu uma extensa faixa entre o leste do Paraná e o leste do Rio de Janeiro. Ambas são preenchidas por sedimentos predominantemente argilosos, mas com camadas ou lentes arenosas mais ou menos espessas e repousam em rochas cristalinas muito antigas. 
 
A história geológica que se desenrola no último milhão de anos é similar e as duas bacias vêm sendo lentamente erodidas, inclusive com instalação de grandes rios em seu interior, como as bacias do Alto Tietê, em São Paulo, e Alto Iguaçu, em Curitiba. As semelhanças são inclusive geomorfológicas, pois, além de se constituírem como planícies, os rios que as cortam correm no sentido interior. 
 
Os aquíferos fraturados, relacionados com as rochas cristalinas pré-cambrianas de São Paulo e Curitiba, são os principais mananciais subterrâneos explorados por poços profundos e apresentam vazões semelhantes, com média variando entre 5 m3/h e 10 m3/h. Em ambas as regiões, a água subterrânea funciona como fonte de abastecimento complementar, respondendo por cerca de 15% a 20% da demanda total de água, o que mantém o equilíbrio do abastecimento público.
 
Estas e outras informações sobre as semelhanças do solo das duas cidades formam o livro “Twin Cities – Solos das Regiões Metropolitanas de São Paulo e Curitiba” (ABMS, 2012), assinado por Arsenio Negro, Makoto Namba, Andrea Sell Dyminski, Vivian Leme Sanches e Alessander C. Morales Kormann, pré-lançado em São Paulo, em novembro de 2012. O editor-chefe do livro, Arsenio Negro, explica que a compilação dos estudos tem como objetivo somar conhecimento adquirido nos temas de geologia, hidrogeologia e geotecnia e trocar experiências entre os profissionais das duas cidades. “Em termos práticos, o livro se constituirá em uma importante fonte de informações para os profissionais que atuam nessas áreas.”
 
Regiões apresentam diferenças sutis

“Em São Paulo, predominam as Formações São Paulo e Resende, e em Curitiba, a Formação Guabirotuba. São constituídas por argilas siltosas e siltes argilosos sobreadensados, entremeados por pacotes de areias silto-argilosas. A diferença principal entre as bacias é que a de Curitiba é muito mais extensa, possuindo aproximadamente 3 mil Km2, enquanto a de São Paulo possui cerca de 1 mil Km2 ”, explicam os editores do livro. Em compensação, a espessura máxima atual da Bacia de Curitiba é menor, com aproximadamente 80 metros enquanto a de São Paulo possui cerca de 290, dizem os pesquisadores. As cotas máximas atuais são semelhantes, sendo 840 metros para São Paulo e 930 para Curitiba. “Estima-se que o número de poços tubulares em operação seja de 12 mil na cidade de São Paulo e de 3 mil, em Curitiba (apenas no Aquífero Atuba), sendo grande parte destes poços clandestinos e havendo ainda tendência atual de exploração em profundidades crescentes”, acrescenta Negro.
 
Reginaldo Bertolo, professor e vice-diretor do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (CEPAS/USP), explica que os sedimentos da Bacia de Curitiba são mais delgados e argilosos, menos permeáveis e, portanto, funcionam como aquitardo. “Em São Paulo, o aquífero sedimentar é um importante manancial, embora ocorram diversas áreas de superexplotação, cujos poços acabaram por drenar várias porções do aquífero”, completa o professor.
 
Contribuição para mudanças no uso do solo e subsolo
 
A demanda por novas informações, cuja observação deve ser em escala local, é uma realidade premente. A obtenção de respostas a essa demanda permitirá a melhoria do planejamento urbano em seus vários níveis. "Os trabalhos apresentados, dos quais a geologia e hidrogeologia fazem parte, servem como referência técnica para a comunidade que atua em geotecnia nas regiões”, afirma Bertolo, do CEPAS.
 
Na opinião de Eduardo Salamuni, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), quanto maior o aprofundamento do conhecimento de ambas as bacias melhores e mais precisas serão as decisões que envolvem o planejamento do uso de seu solo e de seu subsolo. “É preciso ter em mente que as cidades constantemente estão reinventando e/ou requalificando o modo como ocupam o espaço onde estão instaladas. Com o adensamento urbano intenso, a partir da década de 1970, mais e mais se utiliza o subsolo não só como um espaço de serviços urbanos básicos, como a drenagem de águas pluviais e o esgotamento sanitário, mas também no uso mais nobre como o metrô e, recentemente, até nichos de um comércio ainda incipiente. Em vista desse processo diferenciado torna-se ainda mais necessária a obtenção de um conhecimento bem detalhado tanto do perfil geológico-geotécnico quanto do hidrogeológico. Isso vale para Curitiba e São Paulo”, explana Salamuni.
 
Os editores do livro acreditam que a compilação de dados atualizados sobre as duas bacias oferece à sociedade informações acessíveis e valiosas, que possibilita avaliações e ações otimizadas. Eles destacam que quando estas se relacionam com obras de infraestrutura, o benefício de se dispor de projetos e obras otimizadas é evidente, representando ganhos para toda coletividade.
 
Contaminação alastrada exige fiscalização rigorosa
 
Se a formação geológica é parecida, os problemas também podem ser compartilhados. Em São Paulo e Curitiba a contaminação das áreas prejudica a plena utilização dos recursos disponíveis. “Problemas relacionados com superexplotação e contaminação dos aquíferos são motivos de preocupação para as duas cidades. Na Região Metropolitana de Curitiba, as consequências da superexplotação são agravadas pela possibilidade de instabilidades geotécnicas no Aquífero Karst. Em relação à qualidade da água subterrânea, o diagnóstico atual das áreas contaminadas no Estado de São Paulo e, principalmente, na capital tem possibilitado a detecção de várias fontes de contaminação potenciais e confirmadas, chegando a ser necessária a definição de áreas de restrição para captação da água subterrânea. No caso de Curitiba, as questões relacionadas à contaminação da água subterrânea ainda estão focadas à presença de contaminantes de origem sanitária, como nitrato e nitrito”, analisa Negro.
 
“A fiscalização é uma atividade crucial para a manutenção da “saúde da cidade” e passa pela revisão do uso do solo. O primeiro passo, no entanto, é não fechar os olhos para uma realidade tão presente quanto constrangedora: a contaminação do solo e da água subterrânea é um fato e é tão ou mais grave quanto a contaminação da água superficial, visto que é de mais difícil correção. Reconhecendo-se isso, voltamos ao papel do poder público na sua ação reguladora extremamente importante para os munícipes. Não há necessidade de criar novos mecanismos legais para coibir abusos ou regenerar situações, mas há necessidade de aplicar a legislação em vigor”, explana Salamuni.
 
Na mesma linha de pensamento, Negro aponta que o Estado de São Paulo deve dar prosseguimento às ações de identificação e reabilitação das áreas contaminadas, aproveitando-se a tendência atual de ocupação dos imóveis industriais desativados por empreendimentos imobiliários residenciais e comerciais. “É importante que todo o processo seja aprimorado visando à redução dos prazos associados à reabilitação de tais áreas.” Já para Curitiba, o primeiro passo seria estabelecer uma metodologia própria de gerenciamento para se diagnosticar eventuais áreas contaminadas, seguindo o exemplo de São Paulo.
 
Bertolo afirma que apesar do avanço na gestão das áreas contaminadas em São Paulo, há problemas na sua prática, especialmente em função da grande quantidade de atividades econômicas potencialmente contaminantes no Estado. “A aplicação plena envolve a devida priorização de ações nas áreas críticas de contaminação por parte do Estado, na ampliação de pessoal da área técnica para os trabalhos de fiscalização, assim como o aparelhamento e treinamento deste pessoal”, relata o vice-diretor do CEPAS.
 
O maior impacto é a alteração radical do ciclo da água
 
As duas cidades apresentam altíssima impermeabilização que alteraram as condições locais de clima e uso do solo e sofrem as consequências em épocas de chuvas, como as enchentes e a formação de ilhas de calor. Com o estudo, a situação pode ser melhorada. Para Bertolo, a hidrogeologia é uma peça neste quebra-cabeças e as informações já disponíveis sobre a forma como se dá a recarga e a descarga dos aquíferos da região (naturais ou artificiais) são importantes para contribuir com ações que minimizem os efeitos indesejáveis relacionados com o ciclo hidrológico em meio urbano.
 
“Interessante é que, embora as recargas naturais (advindas da chuva) sejam reduzidas em áreas urbanas, devido a impermeabilização, a recarga total, entendida como a disponibilidade de água, aumenta, devido a fugas da rede de água e esgoto. Estudos, utilizando isótopos estáveis, conduzidos em nossos laboratórios no CEPAS, têm mostrado que 60% da recarga vem das fugas de água e esgoto das concessionárias e que a recarga de hoje é maior do que a recarga antes da ocupação urbana. Isso é particularmente importante, pois se não fosse essa recarga extra, partes consideráveis do aqüífero paulistano já estariam secos”, relata Bertolo.
 
Novamente citando a questão da gestão adequada de locais, Salamuni diz que os alertas não são poucos e tampouco são recentes, mas a ausência de verdadeiras políticas de controle e orientação da expansão urbana barra qualquer iniciativa mais contundente de requalificar os ambientes urbanos. “Nesse aspecto Curitiba, depois de um longo tempo de uso do marketing ecológico, vem se “paulistinizando”, ou seja, está em processo preocupante de perda de áreas verdes e expansão acelerada, o que culmina com verticalização em bairros que outrora eram dominados por casas com quintais que permitiam a recarga do freático e, ao mesmo tempo, amenizavam as bolhas de concentração de calor. As duas cidades estão perdendo o freio – ou já não o possuem - necessário para a mitigação das consequências do aumento da temperatura global, seja qual for sua causa”, acrescenta o professor. O maior impacto que se verifica no ambiente urbano das duas cidades é a quebra ou a alteração radical do ciclo da água. “Esse, por exemplo, é o motivo básico para as recorrentes enchentes em episódios pluviométricos nem tão intensos”, assegura Salamuni.

 
Para mais informações, leia a Revista Água e Meio Ambiente Subterrâneo, da ABAS - Edição 31:
http://www.abas.org/imagens/revista31.pdf
 
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